Capítulo 2 – Entre Taças de Vinho e Fantasmas do Passado

Capítulo 2 – Entre Taças de Vinho e Fantasmas do Passado

O restaurante escolhido por Isabela e Camila era um dos mais sofisticados do Batel, com luzes amareladas que traziam um ar aconchegante ao ambiente e um aroma delicioso de pratos recém-preparados. O lugar estava movimentado, risadas e conversas enchiam o salão, enquanto os garçons circulavam com taças de vinho equilibradas entre os dedos. Era o tipo de ambiente perfeito para uma noite entre amigas.

Ana respirou fundo antes de entrar. Sabia que aquela noite seria um alívio antes do verdadeiro motivo de sua viagem começar. Pelo menos ali, com Isabela e Camila, ela poderia ser apenas Ana – sem as amarras do passado, sem os olhares de Henrique.

— Olha só quem apareceu! — Camila exclamou, acenando exageradamente quando viu Ana se aproximar.

— Achei que ia ter que ir até o hotel te buscar — Isabela acrescentou, já puxando uma cadeira para ela.

Ana sorriu e se sentou, pegando a taça de vinho que Isabela lhe oferecia.

— Vocês exageram.

— Você dá motivo. — Camila brincou, erguendo a sobrancelha.

Ana suspirou, fingindo indignação.

— Eu só queria um jantar tranquilo, sem discussões sobre o meu retorno a essa cidade.

Isabela riu e fez um brinde.

— Então brindemos a isso! Uma noite sem dramas! — As três bateram as taças, e Ana sentiu a tensão no peito aliviar um pouco. Por enquanto, pelo menos.

O jantar seguiu entre risadas e histórias, como se o tempo não tivesse passado para as três. Camila estava obcecada por ioga e, com sua personalidade intensa, já tinha feito um retiro espiritual na Chapada dos Veadeiros, experimentado meditação transcendental e agora cogitava fazer um curso para se tornar instrutora. Isabela, por outro lado, estava imersa no caos do casamento e na eterna luta contra os hábitos desorganizados de Bernardo.

— Eu juro, Ana, às vezes acho que casei com um adolescente de trinta e cinco anos — Isabela revirou os olhos, pegando sua taça de vinho. — Como alguém consegue tirar as meias e simplesmente esquecê-las em todos os cômodos da casa? Até na cozinha!

— É um talento raro — Ana brincou, rindo.

— Um talento infernal! — Isabela suspirou, dramática. — Mas eu amo esse homem, então estou fadada a viver recolhendo roupas e fechando potes que ele insiste em deixar abertos.

— Pelo menos ele te ama. E cozinha para você. O que não é pouca coisa — Camila pontuou. — Eu, por outro lado, desisti do amor. Estou muito ocupada tentando encontrar minha paz interior para lidar com o caos masculino.

— Isso até encontrar um iogue sarado e tatuado — Ana provocou, fazendo as três caírem na gargalhada.

— Não nego, não confirmo — Camila deu de ombros. — E você, Ana? Como está minha sobrinha favorita?

O rosto de Ana suavizou ao falar de Cecília.

— Agora só dorme cercada por pelo menos dez bichinhos de pelúcia — contou, rindo. — Se algum estiver fora do lugar, ela acorda no meio da noite para procurar.

— Isso é a coisa mais adorável que já ouvi — Isabela disse, apoiando o queixo na mão, enquanto Camila sorria com ternura.

— Mas e você? — Camila perguntou de repente, mudando o tom da conversa. — Como está se sentindo voltando para cá?

Ana hesitou. Não queria estragar o clima leve da noite.

— Estou bem — respondeu, depois de um gole longo do vinho.

Isabela estreitou os olhos.

— Você sabe que não precisa fingir para a gente, né?

Ana sorriu, mas desviou o olhar.

— Eu só quero fazer o que vim fazer e voltar para casa. Minha vida está no Rio, meu marido, minha filha… Não há mais nada para mim aqui.

Camila trocou um olhar rápido com Isabela antes de perguntar:

— Nem mesmo a empresa que você fundou e suas melhores amigas?

Antes que Ana pudesse responder, um movimento no salão chamou sua atenção. Sua respiração falhou por um segundo.

Henrique estava ali.

Ele saiu de uma sala reservada do restaurante, provavelmente vindo de uma reunião, e caminhava pelo saguão com a postura firme e a expressão inabalável de sempre. Mas quando seus olhos encontraram os de Ana, ele parou. Apenas por um segundo. Só o suficiente para que ela soubesse que ele também não estava preparado para aquele encontro.

O tempo pareceu desacelerar. Ela tentou se convencer de que não sentia nada, que seu coração não batia mais rápido. Mas era mentira.

Henrique desviou o olhar e seguiu reto, saindo pela porta do restaurante como se nada tivesse acontecido. O ar que Ana nem havia percebido estar prendendo finalmente saiu de seus pulmões. Por um momento, pensou que aquela troca silenciosa teria sido o único contato da noite.

Mas, minutos depois, sentiu a necessidade de respirar um pouco de ar fresco. Despediu-se das amigas por um instante e saiu para a área de fumantes do restaurante, imaginando que estivesse sozinha ali.

Não estava.

Henrique estava apoiado contra a grade de vidro, uma das mãos no bolso do terno impecável, a outra segurando um copo de uísque. O olhar perdido na cidade à frente.

Ana hesitou, mas já estava ali. Pegou o charuto fino de dentro da bolsa e o acendeu, soltando a primeira tragada de forma lenta. O cheiro amadeirado e forte tomou conta do espaço.

— Nunca pensei que veria isso — a voz dele cortou o silêncio, carregada por algo que Ana não soube identificar. Henrique virou o rosto para encará-la, os olhos escuros escaneando cada detalhe seu, como se procurasse algo que ainda reconhecesse. — Você fumando? Desde quando?

Ana soprou a fumaça devagar, sustentando o olhar dele.

— Meu marido gosta. Peguei o hábito.

Henrique não respondeu de imediato, mas o maxilar contraiu-se. Pequeno, sutil, mas perceptível. Ela conhecia cada um dos sinais dele, mesmo depois de tantos anos. A tensão nos ombros, o modo como o copo de uísque girou em sua mão, a forma como ele umedeceu os lábios antes de falar novamente.

— Interessante. — Sua voz saiu mais grave. — Sempre achei que você não fosse do tipo que absorve hábitos dos outros.

Ana sorriu, inclinando levemente a cabeça, fingindo um desinteresse que não sentia.

— Talvez você nunca tenha me conhecido tão bem quanto achava.

Ele riu, um som breve, sem humor. O olhar preso no dela, intenso demais, pesado demais.

— Ou talvez você tenha mudado mais do que eu esperava.

Ela apagou o charuto contra o cinzeiro e virou-se para a porta, pronta para encerrar aquele jogo antes que se tornasse perigoso demais. Mas Henrique não se moveu. Não a impediu, mas tampouco desviou os olhos. Apenas a acompanhou enquanto ela se afastava, como se tentasse memorizar cada detalhe da mulher que ela havia se tornado.

A porta de vidro se abriu e Isabela e Camila apareceram.

— Achei que você estivesse no banheiro — Isabela disse, olhando de Ana para Henrique e de volta para Ana.

— Viemos te chamar. O motorista já chegou — Camila completou, o olhar desconfiado pousado em Henrique.

Ana ajeitou a bolsa no ombro e assentiu.

— Ótimo. Vamos.

Henrique permaneceu em silêncio, mas ela sentiu seu olhar queimando em suas costas até o momento em que cruzou a porta do restaurante novamente. O clima pesado do reencontro ficou no ar, e ela sabia que aquele era apenas o primeiro de muitos momentos como aquele que estavam por vir.

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