Capítulo 01: O Que Ficou Pra Trás

Ana sempre encontrou conforto na rotina das manhãs no Leblon. O aroma do café recém-passado, a brisa salgada que dançava pelas cortinas abertas, o som das ondas quebrando suavemente na praia. Tudo aquilo formava um cenário meticulosamente organizado, um lembrete de que sua vida estava sob controle. Acordar cedo, preparar Cecília para a escola, revisar a agenda do dia, manter tudo no lugar. Era assim que gostava.

Mas naquela manhã, algo estava diferente. O cheiro do café pareceu menos acolhedor, a brisa menos leve. Talvez fosse o e-mail não lido que piscava na tela do seu celular. Ou talvez fosse a sensação incômoda de que, depois de tantos anos, o passado finalmente a alcançara.

De: Henrique Bastos
Assunto: PROJETO NOVA AURORA – Parceria entre empresas

Ana,
Espero que esteja bem. Sei que faz muito tempo, mas estou ansioso para trabalharmos juntos novamente. Nos vemos em breve.

Grande abraço,
Henrique.

O café esfriou na xícara antes que Ana percebesse que estava segurando o celular com força demais. Sua visão desfocou por alguns segundos, a mente voltando automaticamente para um tempo que ela tentou trancar a sete chaves. Henrique. Seu nome soava como uma cicatriz mal curada. Ela leu novamente, tentando encontrar alguma armadilha nas entrelinhas. Ele estava ansioso? Para o quê? Para vê-la tentando manter a compostura depois de dez anos sem trocar uma única palavra? Para lembrá-la do que eles tiveram, do que nunca poderiam ter de volta?

O celular de Ana vibrou novamente, tirando-a de seus pensamentos. Era Isabela.

Isabela: Acabei de ver o e-mail do Henrique. Você está bem?

Ana suspirou e digitou rapidamente.

Ana: Defina “bem”.

Isabela: Respiração estável, sem taquicardia e sem vontade de jogar o celular pela janela.

Ana: Então talvez eu não esteja tão bem assim.

Isabela: Sabia que esse dia ia chegar. Você quer que eu interfira?

Ana: Não. Eu já respondi. Algo curto, objetivo. Não vou dar espaço para ele achar que pode tornar isso pessoal.

Isabela: Isso aqui nunca deixou de ser pessoal para ele, Ana. Você sabe disso.

Ana fechou os olhos por um instante. Isabela tinha razão. Mas ela se recusava a admitir isso em voz alta. Em vez disso, apenas digitou:

Ana: Eu só quero resolver isso e voltar para minha vida. Sem dramas.

Isabela: Se tem Henrique envolvido, você sabe que “sem dramas” não existe.

Ana largou o celular sobre a mesa e soltou um suspiro longo. Sim, sabia disso melhor do que ninguém.

Ela respirou fundo e, ao invés de ignorar, respondeu.

Para: Henrique Bastos
Assunto: RE: PROJETO NOVA AURORA – Parceria entre empresas

Henrique,
Estou ciente do projeto e alinhada com Isabela sobre o andamento. Nos encontramos na reunião.

Atenciosamente,
Ana.

A resposta era direta, impessoal. O oposto de tudo que Henrique já significou para ela um dia. Mas era necessário.

— Mamãe, olha! — Cecília apareceu na porta do escritório segurando dois prendedores de cabelo coloridos. — Qual fica melhor hoje?

Ana forçou um sorriso, afastando a inquietação. Ajoelhou-se diante da filha e fingiu avaliar os acessórios como se fosse uma questão de extrema importância.

— Esse azul combina com seus olhos. Mas esse amarelo tem um brilho especial. Que tal misturar os dois?

Cecília sorriu, encantada.

— Você é a melhor mãe do mundo!

Ana riu e beijou sua testa.

— Eu tento, meu amor. Agora vá terminar de se arrumar.

Assistiu a filha correr pelo corredor e soltou o ar lentamente. Tinha um dia inteiro pela frente e não deixaria o passado interferir no presente.

Naquela noite, sentada no sofá ao lado de Lucas, Ana sentiu o peso do que estava por vir. Lucas era mais do que seu marido; era seu porto seguro, a âncora que a mantinha firme quando tudo parecia desmoronar. Desde o início, ele soube que parte dela sempre carregaria cicatrizes do passado, e nunca tentou apagá-las, apenas segurou sua mão e garantiu que ela não precisasse enfrentá-las sozinha. Ele sabia quem Henrique havia sido para Ana. Sabia o quanto aquele amor a marcou e o quanto a destruiu. E agora, sabia também que aquela viagem não era apenas uma questão de trabalho. Era um reencontro com tudo que ela passou a vida tentando deixar para trás.

— Vai ser difícil ficar tanto tempo longe. — Ela disse, deitando a cabeça no ombro dele.

Lucas passou o braço ao redor dela e suspirou, apertando-a de leve.

— Eu sei. Mas você precisa ir. E vai ser rápido, duas semanas passam voando. Cecília e eu vamos ficar bem.

Ana respirou fundo. Queria dizer que não era apenas a distância. Queria dizer que, por mais que o tempo tivesse passado, ainda existiam fragmentos do passado que nunca foram resolvidos. Que a presença de Henrique sempre seria um lembrete do que nunca foi dito.

— Sei que sim. Só… — Ela hesitou. — Eu não queria que fosse assim. Não queria que esse contrato idiota ainda me prendesse a essa empresa. Não queria estar indo.

Lucas virou-se para ela, segurando seu rosto entre as mãos, os olhos cheios de compreensão.

— Você não precisa ter medo do passado, Ana. Você seguiu em frente. E se isso ainda te incomoda, talvez seja a hora de encarar de vez.

Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.

— Eu só queria não precisar lidar com isso. Você sabe como foi… o fim. Como eu saí de lá sentindo que tinha sido destruída.

Lucas assentiu, e Ana viu a sombra de preocupação em seu olhar.

— Eu sei. Mas também sei que você não é mais aquela garota. Você construiu uma vida linda, Ana. Você é forte. E, se precisar, eu estou aqui. Sempre.

Ana engoliu em seco, sentindo a emoção presa na garganta. Lucas nunca a fez sentir que precisava esconder qualquer parte de sua história. Isso sempre foi um dos motivos pelos quais o amava tanto.

— Você confia em mim? — Ela perguntou, sentindo-se vulnerável.

— Com tudo que sou. — Ele respondeu sem hesitar, mas algo em seu olhar denunciava um incômodo silencioso. Lucas nunca foi um homem de inseguranças, mas a menção de Henrique sempre carregava um peso. Ele podia confiar em Ana, mas não confiava na história que ela compartilhava com aquele homem.

Ana percebeu. A tensão discreta nos músculos dele, o leve apertar dos dedos contra sua cintura, o modo como seu olhar percorreu o rosto dela em busca de qualquer vestígio de hesitação.

— Eu sou sua, Lucas. Você sabe disso. — Ela murmurou, os lábios roçando contra a pele quente do pescoço dele. Queria dissipar qualquer resquício de dúvida.

Ele deslizou os dedos pelo rosto dela, segurando sua nuca e a puxando para um beijo mais intenso, possessivo. Como se quisesse reafirmar para si mesmo que Ana era dele, que Henrique fazia parte do passado. Quando a afastou, seu olhar estava carregado de desejo e algo mais profundo.

— Então me mostra. — Ele murmurou contra seus lábios.

Ana sorriu de leve, sentindo a pulsação acelerar. A resposta dela veio sem palavras, no toque lento que percorreu o peito dele, nas mãos explorando cada linha familiar de um corpo que era seu lar há anos. E por aquela noite, ao menos por aquela noite, eles esqueceriam qualquer fantasma do passado.

Uma semana depois de receber o e-mail de Henrique, Ana finalmente embarcou para Curitiba. O avião pousou suavemente na cidade, mas ela sentiu um peso no peito que não conseguia explicar. Havia anos que evitava voltar. Quando precisava tratar de assuntos relacionados à empresa, delegava tudo a Isabela. Mas agora, o destino — ou talvez Henrique — havia decidido que ela não tinha mais escolha.

No carro a caminho do hotel, observou a cidade passar pela janela. Tudo parecia igual e, ao mesmo tempo, diferente. Como se estivesse entrando em uma realidade paralela, um universo onde ainda existia a garota de dezessete anos que sonhava com um futuro ao lado de um único homem. Mas aquela garota não existia mais.

O celular vibrou.

Lucas: Já chegou bem?

Ana: Sim, acabei de chegar. Como está Cecília?

Lucas: Sentindo sua falta, mas eu a distraí com sorvete. Vai sobreviver.

Ana: Ótimo plano. Diga a ela que ligo mais tarde. Te amo.

Lucas: Também te amo.

Ela bloqueou a tela e encostou a cabeça no banco. Seu marido confiava nela. Sua família era sua prioridade. Esse projeto era apenas trabalho, nada mais.

Quando o carro parou diante do hotel, Ana respirou fundo antes de sair. Tinha duas semanas pela frente. Só precisava manter o foco. E se manter longe de Henrique.

Mas, no fundo, sabia que isso seria impossível.

Dentro do hotel, enquanto subia para o quarto, sua mente vagou para o passado. Henrique e ela haviam começado a empresa juntos, um sonho que parecia inquebrável. Ainda jovens, apaixonados e cheios de ideias, prometeram que nada os separaria. Mas o destino e as interferências externas fizeram questão de provar o contrário.

O contrato entre eles, assinado quando ainda eram um casal, havia sido feito com total confiança. Na época, o documento parecia uma formalidade romântica – um símbolo da parceria indissolúvel que acreditavam ter. Mas a realidade se mostrou cruel. Uma cláusula específica estabelecia que qualquer saída societária só poderia acontecer se todos os sócios concordassem. E Henrique nunca concordou.

Nos últimos anos, Ana tentara de todas as formas se desvincular da empresa. Processos judiciais, tentativas de renegociação, apelos diretos. Nada funcionava. Henrique se mantinha irredutível. Ele nunca a impediu de delegar suas responsabilidades, nunca dificultou sua ausência, mas também nunca permitiu que ela se desligasse completamente. Era como uma âncora invisível, um lembrete constante de que, por mais que seguisse em frente, ainda havia algo que a ligava a ele.

A única solução que encontrou foi nomear Isabela para representá-la, mantendo distância do dia a dia da empresa. Mas mesmo isso não apagava sua frustração. Afinal, por mais que não estivesse fisicamente presente, seu nome continuava lá, impresso em cada documento, cada transação, cada decisão importante. E, agora, esse novo projeto a obrigava a retornar, a encarar o que sempre tentou evitar.

Enquanto guardava a mala no armário do hotel, seu celular vibrou mais uma vez. Dessa vez, era um grupo de mensagens com Isabela e Camila, amigas que fizeram parte de toda a sua história em Curitiba.

Camila: Finalmente pousou, madame? Ou resolveu fazer escala em outro continente para evitar o inevitável?

Isabela: Aposto que está ensaiando desculpas para fugir dessa noite.

Ana sorriu pela primeira vez desde que desembarcou.

Ana: Eu nunca fugiria de vocês… Agora, do resto, é uma outra história.

Camila: Então é exatamente por isso que você precisa sair hoje! Só nós três, sem armadilhas. Juro solenemente!

Isabela: Vem logo, mulher! Escolhemos um restaurante novo no Batel e já estamos pensando no vinho. Você não tem opção!

Ana hesitou por um instante antes de responder. Mas sabia que não podia evitar para sempre.

Ana: Tá bom, tá bom! Me peguem às oito. Mas quero vinho bom e fofocas de qualidade!

Ela largou o celular e suspirou, sentindo o peso da viagem assentar de vez em seus ombros. O reencontro era inevitável. Mas ao menos, naquela noite, teria um lembrete de que nem tudo em Curitiba era sobre Henrique. Algumas coisas, felizmente, ainda pertenciam apenas a ela.

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